quarta-feira, 31 de março de 2010

Aulas de inglês são dadas em português, conclui estudo de caso

Trabalho de Rio Preto relata fatores que dificultam aprendizado de língua estrangeira

Em sua pesquisa de mestrado, Ana Lúcia Fonseca Ducatti, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, câmpus de São José do Rio Preto, acompanhou dez aulas em um colégio público do interior de São Paulo e concluiu: o método empregado não promoveu quase nenhum aprendizado em língua inglesa.

Questionários, filmagens e registros mostram que a aula transcorre sem que quase nada seja dito em inglês, relata a pesquisadora, que contou com a orientação do professor Douglas Altamiro Consolo.

O método empregado é o estudo de caso, que consiste na observação detalhada de um contexto ou de um indivíduo. A estudiosa observou as aulas de uma pessoa que não pode ser identificada. A pesquisada é mulher, tem mais de dez anos de experiência, formação em Letras e curso de especialização. A diretoria regional de ensino orientou Ana Lúcia a procurá-la, por ser considerada umas das melhores profissionais da rede pública.

Para a especialista, as conclusões do estudo mostram que a formação em inglês oferecida ao próprio educador já é deficiente. No Brasil, o ensino de língua estrangeira na graduação em Letras está exageradamente concentrado na gramática e na literatura, opina a pesquisadora. "Quando o educador não é fluente no idioma e não domina a pronúncia e o sotaque, ele sente insegurança ao lecionar."

Dormindo em sala
Dez alunos foram escolhidos aleatoriamente para responder a questionários ao final de cada aula. As perguntas eram sobre o que eles tinham aprendido naquele dia, o que eles acharam de bom ou ruim e se desejam ou não mais produção oral em classe. Os estudantes disseram que gostariam de que a professora falasse mais em inglês, desde que traduzindo tudo, o que para Ana Lúcia não traria benefício nenhum ao aprendizado. "A introdução do uso do inglês precisa ser paulatina, mas constante e sem traduções, para que os alunos possam perder o medo de não entender e comecem a gostar de usar as palavras."

Durante as filmagens, a pesquisadora também constatou a baixa participação dos estudantes. Havia muito desinteresse, com flagrantes de jovens dormindo nas carteiras. Eles disseram que era importante saber inglês por exigências do mercado de trabalho, mas um levantamento feito com a sala inteira verificou que apenas um terço dos alunos acreditava estar aprendendo alguma coisa.

A professora em estudo respondeu questionários sobre sua carreira e sobre como ela aprendeu inglês. Ela nunca teve aulas focadas no uso oral, mas dominava bem a estrutura gramatical e conhecia muito sobre literatura da língua. Não se considerava fluente, tinha insegurança ao pronunciar palavras e mostrou-se disposta a fazer cursos que a ensinassem, de fato, a falar o idioma.

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Dá pra acreditar?
Professor de inglês que não sabe falar inglês?
Sinto desapontá-los, mas essa gente é 99,9% dos professores, TANTO da rede pública QUANTO da particular. Não sabem falar inglês. E acham que vão ensinar alguma coisa para o seu filho.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Crocat, o inferno diário

O Crocat decidiu que usar a caixa de areia não é cool.
Como ele é adolescente e a Patita não dá bola pra ele, o Batata o rejeita e os outros o ignoram, a chance de chamar atenção é sair fazendo xixi em qualquer canto. Sim, em qualquer canto, sem critério nenhum de seleção. Pode ser na toalha que eu esqueci no chão. Pode ser em cima do meu caderno, que fica em cima da mesa. Pode ser na cozinha, do lado do armário. Ele simplesmente sente a vontade, se agacha e manda ver. É sempre uma surpresa.

No começo eu pensei que o motivo era que eu estava demorando tempo demais entre uma faxina e outra da caixa de areia. Já tinha ouvido falar de gato fresco, que só faz suas necessidades em caixas de areia razoavelmente limpas. Como vivo em função deles, ok, mudei minha rotina e passei a limpar a caixa com mais frequência.

Não adiantou.

Li hoje que um dos únicos jeitos de reeducar um gato para que ele volte a usar a caixa, é confinando ele. Trancar num espaço pequeno, botar a caixa de areia, água, comida, brinquedos e esperar. Meu coração fica partido de pensar em deixar ele alguns dias afastado do convívio com os outros e comigo, mas realmente não estou vendo alternativa. É isso ou a minha sanidade... Não aguento mais enxugar xixi... Já basta o Xurupito, que ainda faz cocô que mais parece patê depois que tirou o intestino grosso... Cocô eu aceito, Xurupito é o meu doentinho e seu estado de saúde justifica tudo. Crocat é só uma praga, rebelde e mal educado.

Acho que hoje mesmo começo a tortura felina...

sábado, 27 de março de 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

Tunel do tempo: Mais uma chance

O tempo passa, o tempo voa, as grandes questões da minha vida continuam as mesmas. Esse post foi publicado em 20 de dezembro de 2004.

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Errar é humano, cansamos de dizer, principalmente quando nós mesmos cometemos um erro. Esperamos que os outros nos perdoem, e nos escondemos atrás dessa frase-chavão, e exigimos o perdão, pois todos nós temos o direito de errar.

Temos mesmo esse direito? (Até) Quando nos é permitido errar?
Erramos quando o medo nos impede de fazer algo da maneira supostamente correta e preferimos ir pelo caminho errado, que nos parece mais seguro. Ou por termos esperança de que o caminho errado nos levará de alguma maneira ao destino certo. Erramos quando simplesmente não sabemos que há um meio melhor para fazer as coisas, quando somos dominados pela ignorância. Ou às vezes erramos por simplesmente não nos importarmos com as conseqüências, erramos por acharmos que depois é muito simples colocarmos as coisas de volta no lugar, erramos por prepotência, ou por insensibilidade à dor alheia. Erramos por egoísmo, por paunocuzismo, por sermos habituados a não pagar pelo que fazemos.

Mas quando é que um erro é efetivamente perdoável? Como saber que aquela falta é digna de esquecimento? Como distinguir em qual das categorias citadas acima o erro se enquadra? Sem entrar na questão da gravidade do erro, acho que todos eles devem ser perdoados quando se mostra grande arrependimento. Quando podemos sentir sinceridade de que a pessoa, em outras circunstâncias, não o haveria cometido. Ou que se tivesse maior conhecimento de causa, teria feito as coisas de modo diferente.

Quando percebemos que o erro foi cometido por medo, por esperança, por ignorância. Esses sim merecem que seja considerada a hipótese do perdão. Ou também quando queremos perdoar. Daí então qualquer razão é razão suficiente para aceitarmos o pecador de volta, com os braços abertos.

E acredito que esse seja o perdão mais comum. Quando perdoamos as pessoas apenas porque queremos, mesmo sem termos motivo algum para tanto. Perdoamos porque a nossa necessidade do perdão é mais forte do que a raiva que restou.
Mas também perdoamos quando a pessoa que nos feriu não nos machuca tanto assim. A cena é feita, as queixas registradas, mas na verdade é uma grande encenação e na verdade verdadeira não nos magoamos daquela maneira exteriorizada. Se não doeu, por que simular essa raiva?

Só que o perdão também tem seus efeitos colaterais, não importando a razão que nos levou à ele. Voltam as coisas à sua normalidade depois do perdão? Conseguimos dormir tranqüilamente depois do erro cometido e relevado? O perdão vem com um medo inerente, um temor aterrador de que o erro volte a se repetir, de que outros perdões precisem ser dados. Um terror constante e uma espera desesperadora pelo momento em que seremos decepcionados novamente.

Na grande maioria dos casos, afinal, não vale à pena perdoar. Eu não acredito em perdão. Ele não leva a nada. Assim como a alface. Ou pior. Cria a cultura do erro repetitivo, a certeza do perdão. E prolonga situações que deveriam ter sido definitivamente encerradas quando do primeiro deslize.

terça-feira, 23 de março de 2010

Cães e humanos


Tudo começou há 15 mil anos, no Paleolítico Superior, com a primeira divisão de trabalho entre os sexos da espécie humana. Os homens caçavam e garantiam a segurança do grupo. As mulheres, com vida mais sedentária, coletavam alimentos e cuidavam dos filhos. Foi neste contexto que se iniciaram as relações entre humanos e canídeos. Pesquisas na área de zooarqueologia e antropologia sugerem que foram as mulheres que forjaram a aproximação entre as duas espécies, e as responsáveis pelo primeiro impulso de domesticação e convivência harmoniosa entre humanos e os ancestrais dos cães domésticos de hoje, os lobos selvagens.

Matilhas de lobos sempre ameaçaram populações humanas. E os homens, determinados a se defender de ataques, eliminavam os animais adultos que rondavam os entornos de suas habitações. Ao abater os adultos, no entanto, inúmeros filhotes ficavam órfãos, entregues a um meio hostil, com chances mínimas de sobrevivência. Atraídos principalmente pelos odores produzidos pelas atividades humanas, os filhotes acabavam se aproximando. E as mulheres, em vez de simplesmente darem a eles restos de alimentos, amamentavam-nos com o mesmo leite dispensado aos filhos. Essa aproximação fez com que filhotes se integrassem ao grupo, na qualidade de recém-chegados e se ambientassem ao convívio humano. A pesquisadora aponta que evidências dessa teoria foram encontradas a partir do século 19, entre povos indígenas em várias partes do mundo. Elas comprovariam a maneira como cães e humanos se aproximaram para consolidar uma relação que, agora, faz desse animal o melhor amigo do homem.

Essa foto não é linda???



segunda-feira, 22 de março de 2010

Geórgia e o Elefante

"Geórgia e o Elefante" resgata o lúdico e o mágico


Livro infantil de Tânia Rodrigues traz ilustrações da artista visual Aline Assumpção

O livro infantil Geórgia e o Elefante será lançado no próximo dia 30 de março (terça-feira), no SESC-centro, em Blumenau, com um bate-papo entre as autoras e a garotada, a partir das 15h. Já a noite de autógrafos para as "crianças grandes" será em 08 de abril, às 19h30 no restaurante Farol, situado na Praça do Estudante.

Com texto da jornalista Tânia Rodrigues e ilustrações da também jornalista e artista visual Aline Assumpção, o livro resgata o espírito da infância e trabalha a ludicidade. "Não se trata de uma história com lições de moral, do tipo politicamente corretas ou ecologicamente corretas", informa a autora do texto. "Simplesmente resgata a infância, o lúdico e o mágico", assinala. Da mesma forma, as ilustrações, em traços simples, brincam com o fantástico e o impossível.

Geórgia e o Elefante parte de uma história real vivida por Tânia Rodrigues e a então menina Geórgia Paula Martins. "Geórgia é filha de minha amiga de longos anos, Rosane Magaly Martins. Convivi muito de perto com a menina e com ela iniciei uma historinha de um tal elefante, na verdade, um elefante invisível aos olhos adultos, mas que existe na imaginação das crianças", revela.

O livro infantil foi impresso com recursos do Fundo Municipal de Apoio à Cultura, da Prefeitura Municipal de Blumenau, e tem o selo da Liquidificador Produtos Culturais. Seiscentos exemplares serão doados a escolas públicas e bibliotecas da cidade.

As autoras

Tânia Rodrigues – jornalista, poeta, contista e cronista é autora do livro de poemas "Espontânia", editado em 1999 e reeditado em 2003 pela (atualmente extinta) Editora Cultura em Movimento da Fundação Cultural de Blumenau (FCB). Tem participação em diversas antologias regionais e nacionais e integra o livro Poetas Independentes, editado em 1989 pela Associação dos Poetas e Escritores Independentes de Blumenau (Apei). É jornalista desde 1987, tendo atuado em jornais da região, em especial no Jornal de Santa Catarina, onde foi repórter, editora e cronista.

Aline Assumpção – jornalista, designer, produtora cultural e artista visual. Estuda linguagens visuais desde 1994, tendo atuado em diversos veículos de comunicação, agências e escritórios de design, em Curitiba e Blumenau - onde está radicada desde 2003. Ao lado de Charles Steuck, é sócia na Liquidificador, agência que trabalha com Comunicação e Arte. Nos últimos anos, tem desenvolvido sua atuação como artista visual, participando de diversas exposições, salões e projetos, como Pretexto Sesc, Bienal Brasileira de Arte Fotográfica e Salão Elke Hering. Na área editorial, atua no desenvolvimento de projetos gráficos e editoriais há dez anos, mas esta é a primeira vez que ilustra um livro um livro infantil.

Contatos com as autoras – Tânia Rodrigues – 47 3326-6681 / 9153-4711. Aline Assumpção – 47 3340 0596/ 9919.6279

Saudades.

sexta-feira, 19 de março de 2010

A mulher e a política

Divulgo texto de Gabriela Moncau, que saiu na Caros Amigos de março, sobre a história e a conjuntura atual do movimento feminista. Boa leitura.

Lugar de mulher é na política
Por Gabriela Moncau

Dia Internacional da Mulher completa cem anos com grandes conquistas e muitos desafios.

"Lutamos por uma sociedade de brasileiras que compreendam que a mulher não deve viver parasitariamente do seu sexo, aproveitando os instintos animais do homem, mas que deve ser útil, instruir-se e a seus filhos e tornar-se capaz de cumprir os deveres políticos que o futuro não pode deixar de repartir com ela". A frase parece representar uma demanda atual do movimento feminista, mas foi pronunciada pela zoóloga Bertha Lutz, em 1918, oito anos depois da definição do 8 de março como Dia Internacional da Mulher. Ao alcançar o centenário, a data traz à tona reflexões sobre o que representou esse período de luta pela igualdade de gênero.

No entanto, as batalhas feministas vêm de bem antes de 1910 e, entre as mudanças ao longo de séculos de luta, o próprio conceito do que é mulher tem tomado outras formas. A ideia de que elas são definidas por sua capacidade reprodutora é algo que paulatinamente tem sido quebrado.

"Há os que ainda pensam que, por termos essa capacidade biológica, somos obrigadas a cumpri-la, como animais reprodutores. Mas somos seres humanos com capacidade de decidir se, quando, como e com quem queremos ou não ter filhos ou filhas. O que humaniza e qualifica a maternidade", afirma Maria José Rosado, uma das fundadoras e coordenadora da organização Católicas pelo Direito de Decidir. "Há décadas, uma mulher era associada estritamente à ideia de cumprir a função de boa esposa e mãe. Hoje, essas características permanecem, mas são mais sutis ou disfarçadas e somam-se a outros elementos, como a função de boa profissional", completa Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres.

Sujeito político

Já para a uruguaia Lilian Celiberti, da Articulación Feminista Marcosur, "a principal transformação a se comemorar depois de cem anos da data é a constituição das mulheres como sujeitos políticos, com capacidade de questionar e disputar sentidos teóricos e práticos que impactam a organização da sociedade", analisa. Por mais que as mulheres estivessem presentes em todas as lutas históricas da humanidade, é o feminismo que traz a ideia da mulher enquanto sujeito político próprio, denunciando a existência da opressão específica de gênero, o patriarcalismo, que perpassa todas as classes e etnias. Nalu acredita que o feminismo trouxe mudanças no entendimento do que é cada área da organização social: "Na economia, por exemplo, o trabalho doméstico tem um papel na reprodução do capitalismo que é importantíssimo".

Portanto, apesar da comemoração das vitórias alcançadas ao longo desses anos de batalhas, o horizonte das lutas ainda não foi alcançado: caso contrário, apontam as feministas, o padrão das relações sociais e culturais da sociedade teria sido radicalmente alterado. O diagnóstico é de que o machismo, assim como o capitalismo, tem uma afiada capacidade de se redefinir e se adequar a cada momento histórico.

Parte do movimento feminista visa construir um projeto de sociedade em conjunto com os outros setores anticapitalistas. "A compreensão de que a pauta não é específica das mulheres, mas faz parte de uma crítica global ao modelo e, portanto, exige o entendimento da sociedade dividida por gênero, classe, raça e etnia é fundamental para a união de diversas lutas que têm o mesmo fim", sintetiza Nalu Faria. "As lutas das trabalhadoras domésticas, das pescadoras, das camponesas contra o agronegócio, articulam-se com o combate à violência de gênero e com a bandeira pelo aborto legal", aponta Lílian Celiberti.

Questionada sobre a superação do machismo dentro das próprias organizações antissistêmicas, Celiberti reforça: "as mulheres têm que disputar o poder, questionando as formas de política que as excluem e questionando a legitimidade das propostas de esquerda que não contemplem horizontes de emancipação para homens e mulheres".

O movimento feminista vive atualmente um momento importante, pois construiu uma plataforma unificada em torno das reivindicações latentes e baseada no acúmulo de experiências das lutas anteriores. Segundo Maria Amélia de Almeida Teles, da Articulação de Mulheres de São Paulo, "hoje existe uma construção de propostas unificadas no mundo inteiro, com mais articulação na América Latina". As principais bandeiras, além da disputa nos espaços políticos – institucionais e no interior das próprias organizações – são contra a violência às mulheres e pela legalização do aborto. Nesses dois pontos, avaliam as feministas, ainda há muito a avançar.

Violência doméstica

As violências físicas praticadas contra as mulheres escancaram uma das formas mais perversas da desigualdade entre os gêneros. Exemplos de agressões não faltam e evidenciam a naturalização das agressões. Em junho de 2007, o espancamento da trabalhadora doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto, abordada num ponto de ônibus por jovens de classe média do Rio de Janeiro, e a justificativa mais preconceituosa ainda – "achávamos que era uma prostituta" –, demonstrou, segundo as feministas, que a misoginia e a negação da humanidade da mulher ainda estão arraigadas em nossa sociedade.

Além disso, a violência dentro do âmbito doméstico atinge índices assustadores. De acordo com dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça em 2009, a quantidade de processos em tramitação no Brasil relacionados à agressão doméstica chegou a 150.532. No entanto, como consequência de muita luta do movimento de mulheres, a questão deixou de ser tratada como parte do fórum íntimo para ser vista como um problema público, social e cultural.

A conquista, em 2006, da Lei Maria da Penha (n° 11.340/06), que responsabiliza família, Estado e sociedade por "toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão" contra as mulheres, foi comemorada por todos os setores feministas.

Gabriela Moncau é estudante de jornalismo

quarta-feira, 17 de março de 2010

8 de Março: "O espelho é a nova submissão feminina", afirma historiadora

Na semana do Dia Internacional da Mulher, a historiadora Mary Del Priore afirma que as brasileiras são apáticas, machistas e escravas da ditadura da beleza.
Em entrevista à revista IstoÉ, edição 10-03-2010, a historiadora, autora do livro História das Mulheres no Brasil, destaca que a revolução feminista do século XX também trouxe armadilhas.
Eis a entrevista.

Neste 8 de março, há motivos para festejar?
Não tenho nenhuma vontade. O diagnóstico das revoluções femininas do século XX é ambíguo. Ele aponta para conquistas, mas também para armadilhas. No campo da aparência, da sexualidade, do trabalho e da família houve benefícios, mas também frustrações. A tirania da perfeição física empurrou a mulher não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação. Ela precisa se identificar com o que vê na mídia. A revolução sexual eclipsou-se diante dos riscos da Aids. A profissionalização, se trouxe independência, também acarretou stress, fadiga e exaustão. A desestruturação familiar onerou os dependentes mais indefesos, os filhos.

Por que é tão difícil sobreviver a essas conquistas?
Ocupando cada vez mais postos de trabalho, a mulher se vê na obrigação de buscar o equilíbrio entre o público e o privado. A tarefa não é fácil. O modelo que lhe foi oferecido era o masculino. Mas a executiva de saias não deu certo. São inúmeros os sacrifícios e as dificuldades da mulher quando ela concilia seus papéis familiares e profissionais. Ela é obrigada a utilizar estratégias complicadas para dar conta do que os sociólogos chamam de "dobradinha infernal". A carga mental, o trabalho doméstico e a educação dos filhos são mais pesados para ela do que para ele. Ao investir na carreira, ela hipoteca sua vida familiar ou sacrifica seu tempo livre para o prazer. Depressão e isolamento se combinam num coquetel regado a botox.

A mulher também gasta muita energia em cuidados com a aparência. Por que tanta neurose?
No decorrer deste século, a brasileira se despiu. O nu, na tevê, nas revistas e nas praias incentivou o corpo a se desvelar em público. A solução foi cobri-lo de creme, colágeno e silicone. O corpo se tornou fonte inesgotável de ansiedade e frustração. Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho. É uma nova forma de submissão feminina. Não em relação aos pais, irmãos, maridos ou chefes, mas à mídia. Não vemos mulheres liberadas se submeterem a regimes drásticos para caber no tamanho 38? Não as vemos se desfigurar com as sucessivas cirurgias plásticas, se negando a envelhecer com serenidade? Se as mulheres orientais ficam trancadas em haréns, as ocidentais têm outra prisão: a imagem.

Na Inglaterra, mulheres se engajam em movimentos que condenam a ditadura do rosa em roupas e brinquedos de meninas. Por que isso não ocorre aqui?
Sem dúvida, elas estão à frente de nós. Esse tipo de preocupação está enraizado na cultura inglesa. Mas aproveito o mote para falar mal da Barbie. Trata-se de impor um estilo de vida cor-de-rosa a uma geração de meninas. Seus saltos altos martelam a necessidade de opulência, de despesas desnecessárias, sugerindo a exclusão feminina do trabalho produtivo e a dependência financeira do homem. Falo mal da Barbie para lembrar mães, educadoras e psicólogas que somos responsáveis pela construção da subjetividade de nossas meninas.

O que a sra. pensa das brasileiras na política?
Elas roubam igual, gastam cartão corporativo igual, mentem igual, fingem igual. Enfim, são tão cínicas quanto nossos políticos. Mensalões, mensalinhos, dossiês de todo tipo, falcatruas de todos os tamanhos, elas estão em todos!

Temos duas candidatas à Presidência. A sra. acredita que, se eleitas, ajudarão na melhoria das questões relativas à mulher no Brasil?
Pois é, este ano teremos Marina Silva e Dilma Rousseff. Seria a realização do sonho das feministas dos anos 70 e 80. Porém, passados 30 anos, Brasília se transformou num imenso esgoto. Por isso, se uma delas for eleita, saberemos menos sobre "o que é ter uma mulher na Presidência" e mais sobre "como se fazem presidentes": com aparelhamento e uso da máquina do Estado, acordos e propinas.

Pesquisa Datafolha divulgada no dia 28 de fevereiro apontou que a ministra Dilma é mais aceita pelos homens (32%) do que pelas mulheres (24%). Qual sua avaliação?
Estamos vivendo um ciclo virtuoso para a economia brasileira. Milhares saíram da pobreza, a classe média se robusteceu, o comércio está aquecido e o consumo de bens e serviços cresce. Sabe-se que esse processo teve início no governo FHC. Para desespero dos radicais, o governo Lula persistiu numa agenda liberal de sucesso. Os eleitores do sexo masculino não estarão votando numa mulher, numa feminista ou numa plataforma em que os valores femininos estejam em alta, mas na permanência de um programa econômico. Neste jogo, ser ou não ser Dilma dá no mesmo. No Brasil, o voto não tem razões ideológicas, mas práticas.

Ou seja, o sexo do candidato não faz a menor diferença?
O governo criou um ministério das mulheres (a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) que não disse a que veio. A primeira-dama (Marisa Letícia), hábil em fazer malas e sorrir para o marido e para as câmaras, se limita a guardar as portas do escritório do presidente, sem estimular nenhum exemplo. O papel de primeira-dama é mais importante do que parece. É bom lembrar que, embora elas não tenham status particular, representam um país. Daí poderem desenvolver um papel à altura de seus projetos pessoais e sua personalidade. A francesa Danielle Mitterrand, que apoiou movimentos de esquerda em todo o mundo e nunca escondeu suas opiniões políticas, ou Hillary Clinton, pioneira em ter uma sala na Casa Branca, comportando-se como embaixatriz dos EUA, são exemplos de mulheres que foram além da "cara de paisagem".

Por que as políticas brasileiras não têm agenda voltada para as mulheres?
Acho que tem a ver com a falta de educação da mulher brasileira de gerações atrás e isso se reflete até hoje. Tem um pouco a ver com o fato de o feminismo também não ter pego no Brasil.

Por que o feminismo não pegou no Brasil?
Apesar das conquistas na vida pública e privada, as mulheres continuam marcadas por formas arcaicas de pensar. E é em casa que elas alimentam o machismo, quando as mães protegem os filhos que agridem mulheres e não os deixam lavar a louça ou arrumar o quarto. Há mulheres, ainda, que cultivam o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis e serem chamadas de chuchuzinho ou gostosona, tudo o que seja convite a comer. Há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres, por elas mesmas. Esse comportamento contribui para um grande fosso entre os sexos, mostrando que o machismo está enraizado. E que é provavelmente em casa que jovens como os alunos da Uniban aprenderam a "jogar a primeira pedra" (na aluna Geisy Arruda).

O que nos torna tão desconectadas?
As mulheres brasileiras estão adormecidas. Falta-lhes uma agenda que as arranque da apatia. O problema é que a vida está cada vez mais difícil. Trabalha-se muito, ganha-se pouco, peleja-se contra os cabelos brancos e as rugas, enfrentam-se problemas com filhos ou com netos. Esgrima-se contra a solidão, a depressão, as dores físicas e espirituais. A guerreira de outrora hoje vive uma luta miúda e cansativa: a da sobrevivência. Vai longe o tempo em que as mulheres desciam às ruas. Hoje, chega a doer imaginar que a maior parte de nós passa o tempo lutando contra a balança, nas academias.

Há saída para a condição da mulher de hoje?
Em países onde tais questões foram discutidas, a resposta veio como proposta para o século XXI: uma nova ética para a mulher, baseada em valores absolutamente femininos. De Mary Wollstonecraft, no século XVIII, a Simone de Beauvoir, nos anos 50, o objetivo do feminismo foi provar que as mulheres são como homens e devem se beneficiar de direitos iguais. Todavia, no final deste milênio, inúmeras vozes se levantaram para denunciar o conteúdo abstrato e falso dessas ideias, que nunca levaram em conta as diferenças concretas entre os sexos. Para lutar contra a subordinação feminina, essa nova ética considera que não se devem adotar os valores masculinos para se parecer com os homens. Mas que, ao contrário, deve-se repensar e valorizar os interesses e as virtudes femininas. Equilibrar o público e o privado, a liberdade individual, controlar o hedonismo e os desejos, contornar o vazio da pós-modernidade, evitar o cinismo e a ironia diante da vida política. Enfim, as mulheres têm uma agenda complexa. Mas, se não for cumprida, seguiremos apenas modernas. Sem, de fato, entrar na modernidade.

O que as mulheres do século XXI devem almejar?
O de sempre: a felicidade. Só com educação e consciência seremos capazes de nos compreender e de definir nossa identidade.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Não se nasce mulher, torna-se

Infelizmente a mídia trata as lutas feministas como superadas ao reforçar o discurso segundo o qual as mulheres dominam cada vez mais o mercado de trabalho, votam, fazem sexo "livremente", escolhem se e quando serão mães, portanto, não faz sentido o "embolorado movimento feminista". Mas basta checar alguns dados para constatar a urgência de novas conquistas.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), em média, apenas 20% dos cargos públicos de comando são ocupados por mulheres. Há poucas profissionais atuando nos três poderes – legislativo, executivo e judiciário – e o mesmo ocorre nos altos escalões do mundo corporativo.

Outra questão levantada por Beauvoir e ainda não resolvida é sobre o aborto. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que 31% dos casos de gravidez no Brasil terminarão abortados.

Os índices de violência continuam alarmantes. A cada 15 segundos uma mulher é espancada por um homem no Brasil e, em cada dez mulheres, sete são vítimas de seus companheiros, constata o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para Mulher (Unifem). A Lei Maria da Penha é uma importante conquista, pois cria mecanismos que coíbem e previnem a violência doméstica contra mulheres. No entanto, ainda é pouco diante de tantas outras demandas.

Com a globalização, hoje se sabe como vivem as mulheres no mundo todo: brasileiras, árabes, africanas, israelitas etc. É fato que muitas delas ainda não conquistaram seu espaço político-social e, mesmo nos países que contaram com um movimento feminista atuante, ainda há mulheres subjugadas de alguma maneira.

Tirei daqui.

domingo, 14 de março de 2010

sábado, 13 de março de 2010

Redação

Maior expectativa para a correção da minha redação.
Eita tema idiota.

Não entendo como eles podem pegar a disciplina "Psicologia da Aprendizagem", uma coisa que era pra ser no mínimo fantástica, e transformar nessa idiotice. Eu pensei que estando no ensino a distância estaria livre dos professores bestas que só matam o nosso tempo, mas... ledo engano... Eles conseguem matar o nosso tempo ao escreverem a apostila, cheia de lugares comuns e informações inúteis.

E daí fazem a redação com o seguinte tema: O Processo de Internalização.
Sendo que na apostila se falou 3 ou 4 linhas a respeito disso. E mil outras linhas enchendo lingüiça com a zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky (tema que já havia sido levado à exaustão em "Psicologia do Desenvolvimento"). Mas tá. Bufei umas 3 vezes enquanto fazia. Aquele bufo de ai-que-ridículo-isso. Mas cheguei depois a ter pesadelo. Porque fiquei com tanta raiva que escrevi bem mal feito. Daí sonhei que recebi a redação com nota 4. E ainda fiquei feliz, pois sabia que merecia menos que isso.

A redação acabou e here we go to Unidade 2. E eis que, a unidade inteira, é sobre o papel do psicólogo escolar. Sim. Parece uma coisa meio politiqueira assim. Pra gente entender que psicólogo é psicólogo e pedagogo não é psicólogo e que o sistema educacional não funciona sem psicólogo. Eu - ambiciosa demais, pelo jeito - esperava estar estudando coisas bobinhas assim, do tipo teorias da aprendizagem, a escolarização formal, princípios gerais da aprendizagem, principais abordagens teóricas, conceituação de problemas de aprendizagem, diagnóstico dos problemas de aprendizagem, a produção do fracasso escolar. Essas coisinhas aí que na minha humilde opinião qualquer pedagogo PRECISA dominar.

Mas não. O capítulo que falava sobre distúrbios de aprendizagem foi basicamente um ctrl+c ctrl+v de um artigo dizendo que a maior parte dos distúrbios de aprendizagem é na verdade mera dificuldade de aprendizagem. E pronto. Então é isso. Quando uma família vier questionar a dificuldade do filho na escola, eu vou ter um diploma na parede para responder: olha, a maior parte dos distúrbios de aprendizagem é na verdade mera dificuldade de aprendizagem. Eu não vi nada sobre dislexia. Eu não vi nada sobre TDH. Eu não vi nada sobre nada. E hoje eu tenho uma prova de 10 questões sobre... o papel do psicólogo escolar!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Aprendizagem também é uma questão de gênero

Uma questão despertava a atenção da psicopedagoga argentina Alicia Fernández na década de 1980. A maioria dos casos relacionados a dificuldades escolares que chegavam ao consultório dela se dava com meninos e não com meninas.Um estudo realizado entre 1986 e 1989, com crianças e jovens menores de 14 anos, comprovou uma observação: 70% deles eram do sexo masculino. A constatação de que o cenário se repetia em outros países estimulou a investigação sobre o assunto. O resultado está no livro A Mulher Escondida na Professora, que discute o papel feminino na Educação. Com 63 anos, a diretora da Escola Psicopedagógica de Buenos Aires presta serviços de consultoria a instituições de formação em seu país e também no Uruguai, em Portugal, na Espanha e no Brasil. "Sinto que sou um pouco nômade", afirma. Atualmente, ela desenvolve pesquisas sobre hiperatividade e déficit de atenção na infância, problemas que cada vez mais são identificados, inclusive no Brasil.

Nesta entrevista, concedida à NOVA ESCOLA no Uruguai, Alicia explica que esses distúrbios são reflexos do comportamento da sociedade, permeado pelas questões de gênero, e não algo que aparece de forma espontânea e isolada em cada um dos alunos.

Por que relacionar as questões de gênero à aprendizagem?
ALICIA FERNÁNDEZ Percebi que a maioria das crianças que chegava para o atendimento psicopedagógico em meu consultório era de meninos. Achei que essa observação merecia uma pesquisa. Procurei estatísticas em outros países e constatei a mesma situação. Ainda hoje, de 75 a 80% dos pacientes encaminhados para o atendimento desse tipo são do sexo masculino.Para entender melhor a questão, comecei a analisar as famílias e percebi que em casa a figura feminina (mãe, avó, babá, irmã mais velha, tia etc.) era a responsável pelas primeiras descobertas dos pequenos.

Como a orientação feminina interfere na aprendizagem dos meninos?
ALICIA Considerando que os humanos aprendem por identificação, é possível imaginar como é difícil para um garotinho ser ensinado por uma mulher a fazer xixi usando o vaso sanitário,por exemplo. Ela não é um modelo para ele porque não age da mesma maneira. Isso se repete na escola, onde a maioria é de professoras. Sempre queremos nos parecer com quem ensina e é por isso que para os meninos é mais complexo dar uma significação prazerosa ao conhecimento.

Como se explicam, então, os problemas escolares apresentados pelas meninas em sala de aula?
ALICIA Com as garotas, o caso é outro. As dificuldades delas ficam escondidas porque o modelo que se tem de bom aluno é aquele que não questiona, é quieto, obediente, passivo e caprichoso nas atividades. Elas, em geral, reúnem essas características e, por isso, são valorizadas. Esses critérios de avaliação são criados por mulheres, que não consideram as questões de gênero presentes na sociedade. Se esse processo fosse encabeçado por homens, a situação seria diferente porque eles levam em conta outras coisas, como a espontaneidade e a ousadia. Porém o problema não se resolveria se eles também não pensassem nessa dicotomia.

Quais as principais queixas em relação aos estudantes encaminhados aos consultórios psicopedagógicos?
ALICIA Os meninos apresentam hiperatividade e as meninas são diagnosticadas com distúrbios de atenção – estão sempre dispersas e não se concentram. Ambos os casos levam à dificuldade de aprendizagem e são considerados questões de gênero. Quando falamos de crianças, o maior número de pacientes é do sexo masculino, mas a proporção se equipara quando nos referimos aos adolescentes. Isso acontece porque eles, de modo geral, questionam tudo e todos.É assim que constroem o seu pensamento. Se a garota foi reprimida na infância, podem se manifestar durante sua adolescência distúrbios como anorexia e bulimia. Ela não se permite comer para se satisfazer ou come e sente necessidade de vomitar. É como se não tivesse direito de se apropriar do alimento. Essa mesma lógica ocorre em relação ao conhecimento.

Cabe ao professor desenvolver um trabalho intencional sobre gêneros?
ALICIA Eu afirmaria que sim se não tivesse medo de isso se transformar numa técnica, ou seja, o educador falar sobre o assunto duas horas por semana e nada mais. O assunto é para ser trabalhado de maneira transversal, com constância, nas mais diferentes disciplinas.É preciso, por exemplo, corrigir alguns textos que se encontram nos livros de História, como: "Os egípcios moravam na beira do rio Nilo. Suas mulheres..." O texto não diz claramente que as mulheres são propriedade dos homens, mas sutilmente sugere que a palavra egípcios, no trecho, não se refere ao povo como um todo. Essas mensagens subliminares são profundas e perigosas, pois criam um modo de pensar. É necessário excluir isso das aulas.

Cite outras situações de preconceito em relação à mulher.
ALICIA Quando procuramos as palavras homem e mulher em dicionários espanhóis e brasileiros, encontramos embaixo da primeira a seguinte definição: "homem público, indivíduo que ocupa um alto cargo do Estado". Já mulher pública é definida como prostituta, meretriz. Isso está em publicações que, se supõe, falam de conceitos e não de mitos. A professora é uma pessoa pública, uma cientista, importante na vida da comunidade. Outro exemplo de problema relacionado ao gênero: as carreiras de caráter feminino demoram mais para serem reconhecidas. Isso acontece especificamente no Brasil com a Psicopedagogia, em que a maioria dos profissionais é mulher e – diferentemente do que ocorre na Argentina – ainda não é regulamentada.

Pesquisas indicam que muitos educadores atribuem dificuldades de aprendizagem dos alunos a uma condição social desfavorável.
ALICIA Não acredito nisso. Na Argentina, no sul da Patagônia, trabalhei com psicopedagogos e docentes numa comunidade indígena. Havia a idéia de que o povo que ali vivia não aprendia. Quando a história dessa comunidade começou a ser explorada, descobrimos que no passado os índios tinham muito conhecimento na área da saúde. Com isso, ficou claro que antes eles não aprendiam porque precisavam esconder suas origens e, assim, se adequarem aos nossos padrões. Alguns deles foram matriculados em escolas regulares argentinas e alcançaram notas altas nas avaliações, ficando entre os 10% com melhor desempenho dentro da capital federal. Esse exemplo comprova que se reconhecermos que, o outro é inteligente, independentemente de raça, classe social e sexo, grande parte das dificuldades deles desaparece.

Como as questões de gênero influenciam a profissão docente?
ALICIA Os sistemas educativos estão organizados conforme as sociedades patriarcais e, por isso, aspectos da singularidade dos gêneros são negados ou exibidos com excesso, quase como em uma caricatura.

Esses estereótipos prejudicam os docentes e, sem dúvida, os estudantes. O que o homem deixa de lado quando se dedica ao magistério?
ALICIA Às vezes, ele é o único dentro de um grupo grande de mulheres. Por isso, pesa sobre ele a responsabilidade do sexo masculino, ou seja, ele é visto como o grande pai. Quando é preciso chamar a atenção de um aluno, delegam essa função a ele – que não pode se constituir em um modelo de masculinidade como deseja. Não é permitido ao professor, por exemplo, agir com ternura, criatividade e sensibilidade. Se ele assume esse lado, vira motivo de chacota.

E a mulher, o que esconde?
ALICIA As próprias idéias. Ela não discute opiniões e tem medo de publicar algo que escreveu. Não é à toa que 90% dos docentes são do sexo feminino e a quantidade de livros publicados por homens é muito maior. Na maioria dos países que pesquisei, cerca de 80% das publicações desse tipo são de homens.

Como mudar essa situação?
ALICIA Para que as mulheres se autorizem em público, é preciso que elas estejam dispostas a enfrentar quem não concorda com elas. Não é fácil. É necessário tempo para que isso aconteça, pois elas foram preparadas para estarem sempre sorridentes e submissas às imposições. Há trabalhos extraordinários que as professoras fazem e que deveriam se tornar públicos. Entretanto, elas não se animam a escrever suas experiências. Muitas dizem que são a única a pensar de forma diferente na escola. Então, pergunto: "Você já socializou suas idéias com colegas?" Geralmente a resposta é não. Nesse momento, digo que é possível existirem mais duas ou três que compartilham as mesmas opiniões e, juntas, elas poderiam ganhar força nesse questionamento.Por outro lado, há mulheres que quando querem se impor carregam na caricatura do sexo oposto. Elas são ouvidas, mas ficam com a imagem de agressivas e violentas. Esse não é um bom modelo nem para os alunos nem para a sociedade.

Essa falta de autoria tem a ver com as experiências na infância?
ALICIA Sim. A mulher que não se expõe é reflexo da menina que teve de esconder o que pensava, pois suas perguntas nunca eram consideradas apropriadas e as respostas sempre estavam incorretas. Com isso, deixou de questionar o mundo ao redor e passou a registrar tudo em um diário que ninguém pudesse ler. Essa é uma prática comum e exclusivamente feminina. Quando trabalho a psicopedagogia com adultas, proponho o resgate da garotinha que elas já foram um dia para que voltem a se permitir fazer perguntas, conhecer, descobrir e serem espontâneas. Defendo que nunca nos esqueçamos da criança e do adolescente que fomos no passado.

Como não minar o espírito infantil que há em cada aluno?
ALICIA Geralmente, na passagem da préescola para o 1o ano, parte das atividades comuns na Educação Infantil é deixada de lado para que se foque mais nos conteúdos escolares. Com isso, a mensagem passada é que a vida mudou e é necessário assumir afazeres mais importantes. Artistas, poetas, escritores e mesmo os cientistas – autores de grandes invenções para a humanidade – guardam a essência do brincar. Nenhum desses profissionais seria bem-sucedido se não tivesse viva a criança interior, que é questionadora. Os educadores podem ajudar a mudar muito a sociedade nesse sentido. Claro que é um trabalho demorado, mas é profundo porque ele está em contato com seres que são frágeis e aprendem por meio de referências.

De que maneira um mestre pode se tornar um modelo?
ALICIA Sempre nos lembramos daqueles que ensinavam com entusiasmo e dos que tinham senso de humor. Nunca nos remetemos a eles como alguém que lecionava bem. Quando se alfabetiza, por exemplo, se ensina o amor pela leitura e não só o ato de ler. Se o aluno aprende apenas a técnica, não vira um bom leitor. Quando um mestre desempenha sua função com esse grau de qualidade, deixa para trás qualquer problema relacionado à questão de gênero.

terça-feira, 9 de março de 2010

Death Row

E então que eu fiquei sabendo que é possível trocar correspondências em inglês com os prisioneiros que estão no corredor da morte nos Estados Unidos.
Não sei exatamente como isso funciona, nem sabia que eles podiam acessar a internet and all... E descobri que não podem mesmo. As cartas devem ser escritas, enviadas por correio.

Mas pensei que podia talvez fazer alguma coisa. E lá fui eu. Ler os perfis e escolher um preso para me corresponder.

Há.
A coisa é bem mais pesada do que eu pensava. Fui lendo (cada um escreve um pouco do seu perfil, o que gosta de fazer, etc) e ficando triste e triste e triste. De repente meus olhos estavam cheios de lágrimas. Daí parei.

Eu ando muito sensível. Chorona. Acho que não tô preparada para encarar um desafio dessa grandeza.

Mas quem sabe quando eu virar bicho de novo.

domingo, 7 de março de 2010

Referência

E então que eu virei referência.

Cheguei na sala atrasada na última aula (maldito Aterro via 2 de Setembro) e quando cheguei algumas alunas disseram:

- Ó, professora, a Geórgia chegou, pergunta pra ela...

E eu pensei que já tinha feito alguma coisa errada. Sabe como é, antigamente era assim, eu só fazia merda na escola. Então tô acostumada. Fiz cara de huh!?! e a professora disse: tem uma questão que nós ficamos com dúvida, e as meninas falaram que era só esperar você chegar que você ia saber a resposta. Tá vendo a importância do teu papel na turma?

Sim, uma questão que nem a prof tinha entendido direito, e daí deixaram pra depois, pra quando eu chegasse. Fiquei ultra-mega-boba. E morrendo de medo. Combinamos que, quando acabasse a correção, voltaríamos para a questão que suscitou dúvidas. E pá. Gelei. Comecei a ler a apostila, procurando pontos nebulosos. Isso não podia ser coisa boa. Já pensou que mico, toda aquela expectativa e eu dizer que tb não havia entendido? Não...

Morri de curiosidade várias vezes. E daí chegou o momento...
Qual a diferença entre a aprendizagem mediada e imediata?

Tchanam. Respondi. Dei exemplos. Daí falei mais um pouco. E fiquei orgulhosa de mim. Muito mesmo. Ando muito feliz.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Tunel do tempo: O que eu estarei fazendo daqui ha 10 anos?

Esse post eu escrevi em 07 de setembro de 2004. Pouca coisa mudou desde então. Mas falar sobre o que mudou é assunto para outro post!

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Muito menos do que eu planejava há alguns anos atrás. Muito menos do que eu planejei a minha vida inteira. Perdi meus sonhos? Desiludi-me? Ou me conformei com menos? Ou tornei-me realista?

Quando mais nova, queria uma mansão e sonhava com ela. Queria ser rica, de qualquer jeito, seja lá com que profissão (ou casamento), mas queria ser rica. Minha mansão tinha portas imensas e varandas enormes, com colunas, jardim paradisíaco e muitos empregados. Muitos carros na garagem, nenhum filho para incomodar e atrapalhar meu caminho rumo à prosperidade e usura.
Eu não imaginava um companheiro ou marido, isso seria secundário. Não estava na minha TO-DO LIST. Eu era completamente orientada para esse propósito, eu realmente achava que isso era a única coisa que fazia o futuro valer à pena ser vivido.

Hoje, eu já não tenho tanta certeza disso. Daqui a 10 anos, ao invés de um rosto freqüentemente visto em colunas sociais, eu me vejo com a minha casa, o meu marido, os meus dois (ou três?!?) filhos, dando aulas em boas escolas, fazendo alguma especialização na minha área, falando alemão finalmente, sendo dona da minha vida e não devendo nada para ninguém.

Quando eu namorava (meu único namoro sério e longo), era mais ou menos isso que ele queria e eu achava que ele era um coitado por não possuir qualquer tipo de ambição. E isso era o que me fazia crer que jamais daríamos certo, pois eu queria mais, eu queria as estrelas, e ele apenas a vida de um pobre coitado.

Hoje eu vejo que não precisava de mais do que isso para ser feliz (claro que mais que isso também seria legal) e eu estou meio em crise mesmo pq eu não sei até onde eu estou sendo sincera comigo mesma e até onde eu simplesmente me conformei com as possibilidades palpáveis que o futuro me apresenta?

Às vezes quando a gente cria expectativas menores, se decepciona menos. Mas será? Será que é isso que está acontecendo comigo?

quinta-feira, 4 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Psicopatia

Basicamente a psicopatia envolve a inabilidade de expressar ou sentir emoções e de sentir empatia (colocar-se no lugar do outro) tudo o que um indivíduo desse faz é pensando nos objetivos dele, no que ele quer alcançar e no que ele pode conseguir agindo dessa ou daquela maneira. São extremamente sedutores e manipuladores e pensam que todos os outros são idiotas e inferiores, estão aqui para serem usados e extorquidos por eles, que seriam superiores e mais inteligentes.

Li na Calol.
E tipo... Imagens de pessoas próximas me vieram à cabeça.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Concurso em Aracaju

Aracaju é loooonge daqui, eu sei, mas me deu vontade de dar um soco no computador quando eu li que a Prefeitura da cidade está contratando professores (com magistério ou graduação em Pedagogia) para a Educação Infantil e o salário é de...
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600 reais por 40 horas semanais!!!

E daí perguntam qual o problema com o Brasil né???

Isso é Blumenau, minha gente!

Sim, eu tive que ler isso:

Se o negro de antigamente fosse tão inteligente e esperto quanto o branco, teria sido escravizado?

E depois ainda tive que engolir a justificativa:

O negro de antigamente era muito mais forte e resistente que o branco. Se ganhava na força física, por que foi subjugado? Quem tiver capacidade intelectual e o mínimo de maturidade pra pensar e responder isto com inteligência, agradeço. Quem não tiver, que continue na ignorância.