quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Casa + infância

O sonho mais recorrente que eu tenho não é o de estar voando, nem o de chegar na escola descalça (apesar de volta e meia sonhar com isso).

O meu sonho mais recorrente é com a casa onde morei na minha infância. E hoje sonhei com ela novamente. Sonhei que a tinha comprado, e estava me mudando.

Realmente, aquela casa é a coisa mais preciosa que eu tenho da minha infância. Eu saí da casa da minha avó para ir morar lá com a minha nova família: minha mãe e meu paidrasto. E dos 5 aos 12 anos fui a criança mais feliz do mundo. Lá eu ganhei o meu desejadíssimo irmão e brincava todos os dias na rua com meus vizinhos. Tinha um clubinho e a minha bike. Estudava na melhor escola do mundo e tinha os melhores amigos do mundo.

A casa era minúscula, mas ao mesmo tempo o tamanho perfeito. Uma vez dividi meu quarto em 2 com um lençol pendurado no teto, e então me senti independente: tinha a minha própria kitinete lalala. Na "sala" da minha kitinete, tinha duas cadeiras e um quadrinho negro, onde resolvi escrever a minha primeira (e única) novela - inspirada por Que Rei Sou Eu. Mas quando acabou o espaço no quadrinho vi que teria que apagar o primeiro capítulo para escrever o segundo, e então não ia dar certo.

O meu clubinho tinha uns 4 membros e se reunia no topo do morro que era a minha rua. O morro era gigante, mas esses dias passei por lá e descobri que nem é tão grande assim. A gente chegou até a hastear a nossa bandeira numa árvore que tinha lá. E o no dia que o Fábio arrastou a bandeira no chão ele foi expulso porque desrespeitou o símbolo do clubinho. O clubinho acabou ali, porque - oi - eu sempre fui chata mesmo e gostava de estragar as brincadeiras ditando as regras. Então, numa semana de pura revolta, escutando meu super vinil do Engenheiros do Hawaii, fundei o Exército de Um Homem Só. O hino, claro, era a musica homônima. E eu me achava o máximo porque tinha um clube só meu, que ninguém sabia, era a minha própria sociedade secreta. Entre as tarefas do meu Exército, estava criar uma coreografia para o hino e refletir sobre a força de um indivíduo.

Somos quase livres, isso é pior do que a prisão. - gritava Humberto Gesinger.

Pensei muuuuuiiiiiiitoooo sobre essa frase, sobre o que era liberdade e o que era prisão e o que exatamente significava ser "quase" livre. Não concluí nada aos 10 anos de idade, obviamente. Então o meu exército acabou.

Todos os dias voltava a pé da escola (levava uma meia hora, era meio longe) com uns amiguinhos e, na quinta série (10 anos), discutia com eles sobre como os métodos que a professora de inglês usava eram inúteis. "Ela tem que fazer coisas mais práticas, jogos, atividades que sejam interessantes e não ficar só explicando gramática". Estava nascendo aí um certo talento para lecionar? Não, eu sempre fui boba mesmo e gostava de fazer de conta que sabia do que estava falando.

Todos os dias meu pai chegava tarde do trabalho e TODOS OS DIAS eu me escondia para ele me procurar. Todos os dias eu me escondia NO MESMO lugar, num armário que tinha no quartinho da lavação. Todos os dias ele fazia de conta que estava muito difícil me encontrar e eu me sentia a maior escondedora do mundo. Quando me encontrava, ele me enchia de cosquinhas (cócegas) até eu quase me afinar. Um dia ele chegou mais cansado do que o normal e esqueceu de me procurar - eu dormi ali mesmo, dentro do armário super apertado e acordei muito tempo depois (deveriam ter se passado uns 15 minutos, mas na minha sensação foram horas) com muita dor no pescoço.

Esse mesmo super-pai todos os dias me levava para cama porque eu acabava dormindo na sala, e me tampava - me enrolando nas cobertas - e me dava um beijo, e as vezes ficava um tempo a mais porque eu chorava muito - não entendia porque o meu "pai verdadeiro" não gostava de mim e sentia muitas saudades dele. Grande homem esse meu paizão-drasto. Nunca, em nenhum momento desmereceu meu pai ou xingou ele ou falou que ele não me amava como a minha mãe fazia. Só ficava abraçado comigo e dizia que sabia o quanto isso devia ser difícil, que meu pai deveria estar passando por coisas complicadas, mas que ele e a minha mãe estavam ali e me amavam muito e um dia meu pai ia se arrepender de não ter conhecido melhor essa menina linda e inteligente. Isso de eu chorar deve ter acontecido umas 3x, mas é engraçado como nas nossas memórias parece que foi todo dia. Mas a parte de me levar pra cama e me tampar, essa eu sei que era todos os dias.

Na nossa casa todo final de semana ia um monte de gente, os amigos malucos dos meus pais, e eles eram muito massa e me davam a maior corda. Bebiam vinho de garrafão e a janta quase sempre era macarrão com salsicha, e quando tinha um $$ a mais minha mãe comprava Bon Gouter, que para mim era o auge da fineza. Eu me sentia muito chic trazendo as cumbuquinhas de Bon Gouter para os convidados. Meu preferido era o de Roquefort (q nem existe mais) porque meu sonho era ir para a França e, por isso, tudo que era francês pra mim era mais gostoso e mais lindo e - óbvio - muito fino.

***

Se eu tivesse como, compraria mesmo aquela casa. Talvez ia estragar o sonho, porque as coisas nunca seriam como eram na minha infância. Mas eu sou apaixonada por aquele lugar, por aquela casa, por essas memórias. Esses dias passei por lá de novo, parei e bati palmas na frente dela. Expliquei que passei bons momentos ali e pedi para entrar. A mulher não deixou. Humpf.

Um comentário:

A dona do coração disse...

Adorei essa sua história... e que mulherzinha chata, hein?!

Ei, vc tem msn? Eu morro de vontade de conversar com vc!!!

Beijo